Tuesday, February 26, 2008

 

Persépolis

Orgulho e Preconceito

Uma das características fenomenais do cinema é sua capacidade de transformar cenas em verdadeiras obras de arte. Stanley Kubrick talvez tenha explorado essa faceta ao máximo com os enquadramentos e movimentos de câmera em 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Nas mãos de diretores competentes os planos deixam de ser uma mera forma de captação e se tornam objetos imbuídos de valores cognitivos, que necessitam de uma interpretação semiótica para serem valorizadas. Valores esses que estão presentes em cada plano e cena de Persépolis, animação francesa adaptada do livro de Marji Satrapi. As imagens em preto e branco são de uma sensibilidade e beleza comparável à de grandes pinturas. Em duas cenas especificas essa transição se torna realidade ao vermos Marji, a personagem principal, se torna objeto de quadros famosos. Primeiro ao descobrir um corpo morto nos escombros da vizinhança a sua expressão de desespero lentamente se torna em “O Grito” de Munch, e ao descrever as absurdas novidades anatômicas que a adolescência fez ao seu corpo vemos ela desconfigurando em uma figura cubista da “Guernica” de Picasso. São momentos como esses que mostram a profundidade e inteligência dessa animação.
Ao contar a historia de Marji, os diretores conseguem retratar a mais doce inocência infantil e ao mesmo tempo a dura e amarga realidade de viver em um país em guerra por oito anos. A violência progride no mesmo ritmo que a maturidade da personagem acompanhando o seu modo de ver e encarar o mundo. Seus devaneios infantis sobre a revolução e a história de seu país são retratados de forma inocente e singela mesmo sendo contos de morte e brutalidade. A transição para a maturidade tem como ponto de partida o falecimento de seu tio, que morre lutando contra o regime totalitário. Inconformada com a injustiça ela grita e briga com Deus em seu último devaneio inocente. A partir deste momento o que nos é mostrado não são mais cenas da imaginação e sim a triste realidade da guerra.
Ao concentrar sua atenção no preconceito e nos absurdos que as mulheres no Teerã tinham e têm que suportar o filme ganha maior relevância social. É curioso aprender que em um país que é conhecido internacionalmente pela severidade e restrição religiosa as adolescentes ouviam Punk e usavam tênis. É uma quebra surpreendente do paradigma que a mídia criou sobre aquele povo. A rebeldia, que em muitos momentos aparece na forma da música, é o modo que Marji encontra para lutar, protestar e se afirmar como individuo. A figura feminina é retratada de forma doce e original criando mais uma personagem forte e memorável. E ao final do filme o que vemos é uma história sobre ter orgulho de seus pais, da história de sua nação e origem de seu povo. Orgulho esse que no final do dia cheira a Jasmins.

Momento para a eternidade: A cena em que a reação de Marji de desespero se torna "O Grito" de Munch.

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