Thursday, February 28, 2008

 

Tropa de Elite em DVD


"Say hello to my little friend!"

Muito já se disse sobre Tropa de Elite. Ele já foi rotulado de fascista e já ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Chamar Tropa de Elite de fascista é tão ignorante quanto chamar Ricardo III de Shakespeare do mesmo, são homens truculentos vivendo em um mundo mais truculento ainda. O que seria interessante é estudar porque o público vibra com a violência verbal e física da obra. Seria um urro por se sentirem vingados de certa forma ou simplesmente o que os alemães se referem à Schadenfreude, o prazer do sofrimento alheio.
Espero que as obras futuras aprendam com o sucesso do filme, assim como ele se aproveitou dos acertos de Cidade de Deus. O sucesso é algo que morre se não for cultivado e modificado corretamente. Esse é o "novo cinema brasileiro" que os brasileiros querem ver, de linguagem inquieta, violenta, forte e atual. "Fanfarrão" e "pede pra sair" são como "I see dead people" de Sexto Sentido e "Are you talkin’ to me?" em Táxi Driver, são frases que entraram em nossas vidas por competência ou por osmose.
Ao contrario do filme o DVD é um fracasso. Há algumas entrevistas curtas e quase insignificantes com o diretor (a melhor), o elenco e alguns membros da produção como diretor de fotografia e arte. A grande maioria dos depoimentos não passa dos dois minutos. O DVD ainda conta com o trailer do filme e uma versão do filme disponível para o formato MP4, formato do Ipod. Nada mais justo para o filme que se consagrou na onda da pirataria.
Preço: 29,90 na Saraiva.

Momento para a eternidade: "Bota na conta do Papa"

Wednesday, February 27, 2008

 

Compreendendo o mundo com Calvin e Hobbes Parte I


Nada está sob o nosso controle. Nada.

Tuesday, February 26, 2008

 

Natureza Selvagem

Instino Selvagem

Alguns filmes conseguem atingir tal nível de qualidade e originalidade que se tornam porta-voz do gênero que pertencem. Foi assim com "O Poderoso Chefão", "Cantando na Chuva" e "Star Wars" que com suas inovações são considerados obras fundamentais e referências aos filmes de máfia, musical e ficção cientifica respectivamente. Os road-movies mudaram quando "Born To Be Wild" tocou na abertura de "Sem Destino" de Dennis Hopper. A música e o filme captaram o que é de essencial nessas aventuras na estrada; a viagem física e espiritual. De certo modo todos os outros filmes do gênero seguiram essa premissa, dando as suas respectivas diferenças. "Natureza Selvagem" não foge dessas regras ao contar a história de Chris e sua viagem para o Alaska. Cansado da falsa fachada da sociedade, principalmente das figuras de seus pais, o jovem decide partir em uma aventura de auto-conhecimento tendo o Alaska a sua grande Baleia Branca. Assim como na obra de Herman Melville , o Alaska representa muito mais que o fato de chegar a um lugar isolado. Chegar ao Alaska é matar a Baleia Branca, é vencer a natureza. Logo no começo de sua viagem seu carro é atingido por uma inundação e fica quase submerso. É como se a natureza comunicasse a Chris que para sua experiência ser completa e rica, ele precisa se entregar completamente "nu" à sua vontade. Despido de tudo que tinha como material (exceto roupa) ele começa do zero e parte para o desconhecido.
Em seu caminho cruza com verdadeiros filósofos do nada, ou do tudo se olharmos por outro ângulo. Os personagens secundários são mostrados como forças motrizes e não apenas peões para a história do jovem, principalmente na personagem de Hal Holbrook. A curiosa colisão de um idoso conformado e um jovem inquieto é responsável pelos melhores diálogos e cenas do filme.
A trilha sonora composta com excelência se afasta um pouco do rock pesado de Steppenwolf e investe no melancólico e bucólico, mesmo sendo composta por Eddie Vedder um dos maiores nomes do rock grunge. As letras são poesias ritmadas sobre liberdade, descoberta, solidão e felicidade que emocionam com sua melodia suave e a voz rouca de Vedder.
Grande parte do trunfo do filme é não apelar para demagogias e respostas pseudo-intelectuais e hippies. Em nenhum momento o roteiro personifica Chris como gênio ou um ser dotado de iluminação. A sua aventura é particular, ele faz o que faz porque algo dentro dele urge por mais que a cidade pode oferecer. Suas ações são regidas por seu código de conduta e leis próprias, sendo tão egoístas e falhas como as das pessoas da cidade, como fica exposto na emocionante cena em que Chris mata um alce selvagem.

Momento para a eternidade: A cena em que Hal Holbrook se despede de Chris.

 

Persépolis

Orgulho e Preconceito

Uma das características fenomenais do cinema é sua capacidade de transformar cenas em verdadeiras obras de arte. Stanley Kubrick talvez tenha explorado essa faceta ao máximo com os enquadramentos e movimentos de câmera em 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Nas mãos de diretores competentes os planos deixam de ser uma mera forma de captação e se tornam objetos imbuídos de valores cognitivos, que necessitam de uma interpretação semiótica para serem valorizadas. Valores esses que estão presentes em cada plano e cena de Persépolis, animação francesa adaptada do livro de Marji Satrapi. As imagens em preto e branco são de uma sensibilidade e beleza comparável à de grandes pinturas. Em duas cenas especificas essa transição se torna realidade ao vermos Marji, a personagem principal, se torna objeto de quadros famosos. Primeiro ao descobrir um corpo morto nos escombros da vizinhança a sua expressão de desespero lentamente se torna em “O Grito” de Munch, e ao descrever as absurdas novidades anatômicas que a adolescência fez ao seu corpo vemos ela desconfigurando em uma figura cubista da “Guernica” de Picasso. São momentos como esses que mostram a profundidade e inteligência dessa animação.
Ao contar a historia de Marji, os diretores conseguem retratar a mais doce inocência infantil e ao mesmo tempo a dura e amarga realidade de viver em um país em guerra por oito anos. A violência progride no mesmo ritmo que a maturidade da personagem acompanhando o seu modo de ver e encarar o mundo. Seus devaneios infantis sobre a revolução e a história de seu país são retratados de forma inocente e singela mesmo sendo contos de morte e brutalidade. A transição para a maturidade tem como ponto de partida o falecimento de seu tio, que morre lutando contra o regime totalitário. Inconformada com a injustiça ela grita e briga com Deus em seu último devaneio inocente. A partir deste momento o que nos é mostrado não são mais cenas da imaginação e sim a triste realidade da guerra.
Ao concentrar sua atenção no preconceito e nos absurdos que as mulheres no Teerã tinham e têm que suportar o filme ganha maior relevância social. É curioso aprender que em um país que é conhecido internacionalmente pela severidade e restrição religiosa as adolescentes ouviam Punk e usavam tênis. É uma quebra surpreendente do paradigma que a mídia criou sobre aquele povo. A rebeldia, que em muitos momentos aparece na forma da música, é o modo que Marji encontra para lutar, protestar e se afirmar como individuo. A figura feminina é retratada de forma doce e original criando mais uma personagem forte e memorável. E ao final do filme o que vemos é uma história sobre ter orgulho de seus pais, da história de sua nação e origem de seu povo. Orgulho esse que no final do dia cheira a Jasmins.

Momento para a eternidade: A cena em que a reação de Marji de desespero se torna "O Grito" de Munch.

Monday, February 25, 2008

 

Senhores do Crime

Marcas da Violência
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David Cronenberg é um dos diretores atuais que possui voz e discurso únicos, assim como Tim Burton e M. Night Shyamalan; sendo uma de suas características a incrível habilidade de construir e desconstruir personagens como é mostrado de forma literal em "A Mosca" e de modo mais sutil, porém mais visceral, em seus dois últimos projetos; "Marcas da Violência" e "Senhores do Crime"; ambos com Viggo Mortensen. Enquanto no primeiro a violência era algo latente esperando a hora de emergir o segundo começa com uma das cenas mais violentas dos últimos anos.
Morstensen interpreta Nikolai, um homem de passado violento e que atualmente está no fundo da pirâmide da máfia russa em Londres. Ele é o motorista e faxineiro dos erros de Kirill, filho do chefão da Vory V Zakone, um jovem violento e mimado. Sua atuação, a melhor de sua carreira, consegue apagar de vez da mente do espectador a imagem de Aragorn, seu personagem na trilogia de Senhor dos Anéis. Mesmo com um forte sotaque russo não há nada de exagerado em sua atuação. Sua periculosidade parte de seus olhos e expressão corporal já que não vemos nenhuma atitude violenta dele em si. A morte de uma jovem que acabou de dar luz e seu diário ligam a personagem de Naomi Watts a esse mundo de violência e corrupção.
A violência, no entanto é um pano de fundo para mostrar uma história de redenção e perseverança. Todos os personagens principais vão lentamente perdendo suas máscaras e assim mostram uma dicotomia entre o que são e o que parecem ser. O chefão Seymor aparenta ser um avô recatado ao ensinar a sua neta a tocar violino com emoção, enquanto por outro lado é capaz de cometer um dos piores delitos a uma garota inocente. O seu filho Kirill luta pelo seu afeto e reconhecimento, mas faz isso através do crime e da violência, além de aos poucos revelar certas características homossexuais. Ana, personagem de Naomi Watts, parece ser doce e inocente, mas mostra coragem ao enfrentar os homens mais perigosos de Londres. Amarrando a história destes personagens há um segredo que é revelado logo após uma das cenas mais brutais e corajosas da história do cinema. Um filme forte e diferente, típico do homem que assina a direção.

Momento para a eternidade: Nikolai enfrenta, completamente nú, dois capaganas que o atacam em uma sauna.

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